AL – AmadaLisboa e o Alojamento Local

-Onde nasceste?
-Não se vê logo? Em Lisboa!

Sinto-me uma privilegiada, por tudo, e também porque foi na freguesia de Santa Justa, que chorei pela primeira vez. Há amores assim, que crescem, amadurecem, fortalecem e tornam-se eternos. Assim sou eu com esta cidade de colinas, calçadas, castelos, palácios, miradouros, parques, igrejas, fontanários, museus, praças e gente, muita gente, uns de dentro, outros de fora, uns permanentes, outros de passagem, mas tudo e todos envolvidos por uma luz mágica e um Tejo que corre tranquilo, lavando-nos a vista e a alma.

Donde vem esta luz que nos cativa? A interação de vários fatores pode explicar uma parte deste milagre. As muitas horas de sol, o seu reflexo nas águas do rio, as fachadas das diversas construções de cores claras, a calçada portuguesa, os ventos que tornam o ar mais límpido…

Claro que quando estamos apaixonados o belo, torna-se ainda mais belo. Conseguimos concentrar-nos nas virtudes e mitigar eventuais defeitos.

Gosto de conhecer mundo, mas é sempre com grande satisfação que regresso a Lisboa!

Sim, é única. Sim é bela. Sim, é minha.

Gosto de largar o carro e viver esta cidade em jeito de passeio. Gosto de ‘turistar’ por avenidas, ruas, becos e praças. As pernas não se cansam. Os olhos e o coração agradecem.

O elétrico 24 voltou a circular, depois de muitos anos parado. O passeio é lindo, mas prefiro usar uns ténis e desfrutar este itinerário mais vagarosamente que o 24.

Deixamos as Amoreiras e já mergulhamos no Jardim com o mesmo nome, onde a paragem é obrigatória para um café, tomado sob as árvores, ou para uma visita ao Museu da Água ou à Fundação Vieira da Silva, com aqueduto sempre por perto.

Chega-se ao Largo do Rato, quase sem nos apercebermos. Os olhos saltitam entre as construções de arquitetura cuidada e o movimento de vaivém das gentes.

E antes que a vista alcance o Bairro Alto, somos presenteados com o pitoresco Príncipe Real. Os seus palacetes coloridos, convivem prazerosamente com bares, restaurantes, jardins e comércio de rua, um tradicional, outro alternativo e o Miradouro de São Pedro de Alcântara  já ali, pendurado sobre telhados de fronte para o Castelo.

No percurso até ao Largo Camões, passamos pelo Museu de História Natural, pelo Teatro da Trindade, pela Chocolataria Equador e aterramos assim em plena Baixa.

Se as pernas colaborarem, continuamos entre calçadas, teatros e esplanadas.

Podemos por aqui deleitarmo-nos com todos os artistas de rua, que a troco de algumas moedas, exibem os seu dotes, uns ainda embrionários, outros já firmados, a pedir voos mais altos.

Podemos ir cumprimentar o Tejo, descendo a Rua do Alecrim ou tomar a Rua Garrett e desembocar na Praça D. Pedro IV, ou simplesmente Rossio. Aqui somos majestosamente recebidos pelo Teatro D. Maria II e podemos avançar calmamente, bairros típicos adentro.

Aventurem-se, acho que vão gostar. E não faltam opções. Alfama, Mouraria, Madragoa, Castelo… isto só para citar alguns, talvez os mais pitorescos.

Percam-se nas vistas que os diversos miradouros oferecem, Portas do Sol, Santa Luzia, Castelo de São Jorge, Graça, Senhora do Monte, Santa Catarina, Torel…São tantos! É difícil escolher, mas de qualquer um, avista-se Lisboa, aconchegada entre colinas e o rio. Sempre bela, sempre rainha!

Durante muitos anos, assistimos a uma degradação de muitas construções, nestes bairros típicos e também na Baixa. Esta degradação foi crescendo e com ela a desertificação de muitas zonas da nossa capital. A par deste espetáculo triste e como que reforçando algo que não queríamos perceber, as ruas estavam sujas e emanavam cheiros nauseabundos.

Chegados a este ponto é inevitável falar-vos de duas novas realidades. Lisboa como destino de eleição de turistas de todo o mundo e a explosão do Alojamento Local.

O AL, um monstro amado por muitos e odiado por outros tantos.

Claro que é a minha opinião que aqui deixo. Outros pensarão de forma diferente e ainda assim está tudo bem.

Talvez o AL seja a árvore das patacas para muitos, mas com ele, veio a recuperação de muitos edifícios que estavam à beira da ruína. Com ele, a cidade ganhou mais cor, mais camas e muitas ruas esquecidas e quase apodrecidas, ganharam de novo vida.

A desertificação do centro histórico, não teve origem no AL, mas muito antes. Os típicos moradores destes bairros foram sucumbindo naturalmente ao peso dos anos e as erradas políticas de arredamento ditaram o abandono de tantas e tantas habitações. Uns morriam e os novos que se lhe podiam seguir, não conseguiam pagar as rendas que então já se praticavam, com uma agravante: a falta de interesse por parte dos senhorios, para investirem em obras de melhoramento.

O que sempre esteve em causa, foram as sucessivas leis que causaram enormes entropias ao normal funcionamento deste mercado imobiliário.

Quando o AL começou a surgir, o que havia era uma quantidade exorbitante de fogos desocupados e ao abandono. Desde a década de 80 que o centro de Lisboa tem vindo a perde habitantes. Vejam, o número de eleitores atualmente representa menos de metade dos que existiam na década de 90!

Com se vê tudo isto foi acontecendo, sem AL, sem o boom do turismo. E já agora importa realçar que este crescimento no número de turistas, não é fenómeno virgem. Muitas outras cidades da europa já o sentiram.

O AL está agora com regras mais apertadas, nomeadamente nos bairros mais tradicionais, mas esta medida, poderá ter o efeito contrário do que se pretende se, a par destas alterações, não for feita uma reforma profunda na lei do arredamento e um controlo apertado na especulação imobiliária.

Só é bom se ficar tudo na mesma? Não me parece. A cidade continua grandiosa e bela e se querem saber, adoro o Martim Moniz e toda aquele comércio internacional que se tornou também ele tradicional. As lojas de produtos indianos, paquistaneses, chineses ou africanos, são locais de visita obrigatória para muitos. Eu sou fã do cheiro das especiarias, do colorido das roupas e gosto de me misturar com outras culturas, outras línguas. Qual é o mal de tudo isto?

E os novos restaurantes que nos oferecem pratos internacionais? Muitos podem até ser clandestinos, e se querem saber, adoro-os. As tendências da globalização não têm de ser vistas como alvo a abater.

A mudança, esse bicho papão que tanto nos assusta, mas que nos faz tão bem!

O que sente o meu coração?

Que foram as novas gentes que se adaptaram à vida de Lisboa e não a cidade que se moldou aos novos habitantes.

A beleza e a luz de Lisboa continuarão para além dos alfacinhas, para além dos turistas puxando os seus trolleys, para além dos novos habitantes. Será sempre a ‘nossa’ Lisboa e terei sempre um enorme orgulho de nela ter nascido.

Já experimentaram as novas bicicletas ou trotinetes partilhadas, disponíveis para passeios mais ecológicos a preços convidativos?

Abracem Lisboa, como ela merece ser abraçada, desfrutem do tradicional e descubram as novidades!

Sejam felizes 🙂

Ângela Rego (Foto)
Paula Castanheira (Texto)

 

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