Alexandra Abranches: Lições da Primavera

Num período onde o mundo muda, possivelmente para sempre, mudou também a estação do ano.

Entrámos na Primavera.

A natureza é cíclica e tem uma inteligência própria. O mundo tem uma inteligência própria.

A energia da Primavera traz o Renascimento. É no período em que celebramos a Páscoa, curiosamente. A primavera traz o movimento ascendente do Chi. Saímos do Inverno onde esta energia apontava para baixo e nos convidava ao recolhimento das nossas casas, imersos nas comidas quentes e reconfortantes enquanto nos ligávamos às nossas verdades interiores. Uns em meditação outros em rebelião. Porque o inverno é um drama para muitos. Gente que tem a casa (mente) desarrumada e suja. O Inverno convida-nos a olhar para dentro. E o que sentirá alguém a olhar para dentro da sua desarrumação?

Já a primavera que chegou traz um novo movimento da energia. Ela ascende e as flores brotam, as árvores florescem e assim somos nós. Por norma é a estação do ano em que mais depressões surgem. Na visão da medicina tradicional chinesa, esta estação cujo elemento é a madeira, o órgão mais ativo é o fígado.

E o que guarda o nosso fígado? Raiva.

E a raiva o que mais é? Tristeza reprimida. O que o homem não manifesta o corpo guarda. E de qualquer forma, qualquer casa tem lixo. Mais, ou menos malcheiroso.

Então saímos da contemplação para a germinação. Para a concretização.  É o tempo de um novo eu. Novas conquistas, novos começos, novos namoros, novas paixões, novos projetos.

O momento ideal para limpar a casa e desintoxicar o corpo. Para que na nossa vida possam florescer as mais lindas flores.

Há uns dias atrás, experimentei pela segunda vez um jejum do arroz. Uma experiência que dura 10 dias.

O primeiro jejum que fiz foi o resultado de uma procura de paz interior. Encontrei um grupo – “Jejum e Oração”. 10 dias com o apoio da Eunice Van Uden para fazer esta viagem. Resolvi muitas questões interiores e concluí como vivemos no excesso. Comemos demais. Falamos demais. Queixamo-nos demais. Observamos pouco. Sentimos pouco. Perdoamos pouco. Vivemos rápido demais. A vida é fácil. Processada. Os processos no seu conceito, deveriam dar-nos mais tempo para nos preocuparmos com aquilo que é importante. A verdade. A minha verdade, é que eles têm o efeito contrário. Afastam-nos do que é importante.

Nesta Primavera decidi começar assim. E transcrevendo o que escrevi durante o jejum, explico-te porquê.

“Amor à vida 🌟4o dia de jejum. Perguntam-me porque o faço, se não me sinto fraca, se não morro de vontade de comer outras coisas, se é fácil, quantos dias dura… De facto, perceber a alimentação como uma cura é um desafio porque crescemos e vivemos na roda da cedência aos nossos desejos e estados emocionais. Travamo-los, por norma, quando encontramos algum desafio de saúde ou chegamos a algum limite. A alimentação para a maioria é como se apaga fogos. Uns bolinhos para relaxar em tempos difíceis. Umas cervejas para anestesiar a mente. Um bifinho para dar força para convencer o outro de todas as coisas em que acredito. Afinal que mais formas há de nos alimentarmos? Diversas. A macrobiótica é uma delas. E o que mais me fascina é a integração. A união com o todo. Com os ciclos da natureza, com as emoções, com a mente, com o físico. Não me digas que não acreditas. O que sabes tu disto? Alguma vez jejuaste? A fé não é só coisa de acreditar. É coisa de praticar. E quando se pratica, o conhecimento vira sabedoria. A primavera traz com ela a energia de um novo começo. Saímos da energia mais yin do inverno que nos fechou nas nossas casas com cereais que nos aqueciam o corpo para que pudéssemos olhar para dentro. Para dentro de nós. Para dentro das nossas casas. Foi tempo de recolhimento e introspeção. Agora a Primavera chega e é um novo reflorescer. A energia voltou a ascender e com ela voltamos a ficar mais ativos. Com a capacidade de concretizar. E este novo começo pede também um novo eu. E por isso jejuo. Porque em 10 dias vou renovar todas as minhas células sanguíneas com um cereal inteiro, íntegro, que traz toda a sua energia e vitalidade para cada célula do meu corpo. Tempo de Covid 19 é tempo de renovação. Eu começo por mim e sigo com a Primavera. Faço o porque me amo e porque amo a Vida, porque amo a minha família, amigos e tantos outros. “

“Don’t only pratice your art, but force your way into its secrets; art deserves that, for it and knowledge can raise the man to the Divine” – Ludwig van Beethowen

Este jejum é uma dieta elaborada pelo pai da Macrobiótica – o George Ohsawa – que consiste em 10 dias na exclusividade do alimento mais completo, limpo e integro – o arroz integral. Este cereal devolve ao corpo a sua capacidade de se auto equilibrar. Esta já haveria sido uma prática de Hipócrates, o pai da Medicina. Antes de qualquer cirurgia, era dada a oportunidade ao corpo de se auto curar. 10 dias a cereais integrais e caldos de legumes. –“ Que o vosso alimento seja o vosso medicamento e que o vosso medicamento seja o vosso alimento”

E regressando às flores da Primavera, deixo-vos algumas dicas sobre como desintoxicar!

Quando falamos em desintoxicar não falamos apenas em comida. Falamos de hábitos do dia a dia. Falamos em quebrar rotinas, e limpar o lixo da nossa mente. Falamos em dar tempo ao corpo e à mente para se curarem. Para respirarem. Durante todos os processos de desintoxicação é preciso descansar, dormir. Sossegar.

  • Procura fazer refeições sentado e a horas.
  • Não comas 3 horas antes de te deitar. Vais ter um sono mais reparador.
  • Mastiga bem. No mínimo 20 /30 vezes por cada garfada. 50 para os campeões!
  • Pousa os talheres entre cada garfada. Come de pauzinhos se os souberes manejar.
  • Liberta-te das tecnologias o mais que possas. Sobretudo às refeições.
  • Procura caminhar pelo menos 30 minutos e dormir uma sesta.
  • Consome trigo e cevada que são os cereais da estação. Eles vão ajudar-te a eliminar o que é tóxico. Seja Físico ou emocional. Previligía a Cevada. O trigo já está demasiado alterado.
  • Elimina alimentos refinados e processados.
  • Consome legumes da estação e germinados.

Deixo-te 3 receitas para esta época. Uma canja um Cevadoto de cogumelos shitake e um Chá de cevada.

Canja de Cevada com cogumelos shitake

  • ½ taça de cevada demolhada por 6/8h
  • 6 taças de água
  • 1 alga kombu
  • 1/2 cebola em cubos
  • 2 cenouras em cubos
  • sal marinho
  • hortelã

Numa panela junta a cevada demolhada com a água e todos os outros ingredientes à exceção da hortelã. Deixa cozinhar por 2horas e coloca bastante hortelã ainda quente. Apaga o lume. Podes servir com cebolinho picado. Ou novas folhas de hortelã fresca.

Esta sopa alia a capacidade de limpeza da cevada à dos cogumelos shitake. Fantástica para um jantar.

Experimenta jantar cedo e comer apenas à hora de almoço do dia seguinte. O teu corpo agradece!

Cevadoto de cogumelos

  • 1 taça de cevada demolhada e cozinhada (1 de cevada para 3 de água 50 minutos numa panela aberta, alga kombu e uma pitada de sal marinho)
  • cebola
  • cogumelos shitake secos ou frescos (os secos precisam de ser hidratados)
  • azeite
  • sal
  • cebolinho

Numa frigideira refoga levemente a cebola em azeite ou um fio de óleo de sésamo e cozinha os cogumelos. Envolve a cevada já cozinhada, tempera com umas gotas de shoyu e salpica com cebolinho fresco.

Fora de um período de desintoxicação eu diria para polvilhares com um parmesão de amêndoa. Amêndoas picadas envolvidas em alho ralado e um pouco de shoyu no forno para secarem bem.

Chá de cevada

E se soubesses o bom que isto é!!!!! É das bebidas mais maravilhosas de sempre. Amo!

  • 1 colher de cevada
  • Casca de 1 limão
  • Bastante hortelã.

Numa frigideira tosta os grãos de cevada até ficarem bem escuros.

Leva ao lume 1L de água, a cevada tostada, a casca de limão e a hortelã. Depois de ferver baixa o lume uns 3 a 5 minutos no mínimo e desliga.

Está pronto. Bebe morno e desfruta de ti. Da tua companhia. Da tua beleza. Da beleza de tudo o que há em ti. Da beleza de tudo o que há na vida.

Experimenta estas receitas e conta-me como correu!

Que na tua Primavera floresçam as flores mais bonitas que alguma vez viste.

Com amor!

Alexandra
@projeto_saude_pela_boca

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