“O Coração”, por Rita Alves

“O Coração”, por Rita Alves

Gostava que fosses como um marido que não compreendemos, um jogo que não deciframos, gostava de ter visto mal, de não o entender, não o saber de cor só com um piscar de olhos, não saber que cores estão pintadas nele. Nunca acertei nas cenas do coração, é dar ao máximo até não haver mais para dar. E foi mesmo isso, o meu coração deu demais. Num segundo tudo estava claro, simpático, sentia o ar condicionado no pescoço, de repente não vi mais, não vi mais, queria tanto ver. Chamei Pedro e há lá coisas do destino estava à entrada do serviço de cardiologia, e o Pedro é o técnico que se quer para estas cenas do coração. Batia a 170 bpm, nunca senti tanto calor, desassossego, dor. Mas principalmente desassossego. Gostava de não o “O Coração”, por Rita Alvesentender, não lhe conhecer de cor todas as cores e sons. Mas eu conheço-te, monitor ecg. Conheço-te tão bem, é o mal de ser um bicho do serviço de urgência, eu conheço-te e sei que neste momento estás contra mim. Sei o teu ritmo, sei que desta dança, sou eu que vou sair devastada e cansada.

Mas hoje dei-te com os pés e voltei para a minha casa.

Rita Alves

“With the things you could do, you won’t but you might
The potential you’ll be that you’ll never see
The promises you’ll only makeDrink up with me now and forget all about
The pressure of days, do what I say
And I’ll make you okay and drive them away
The images stuck in your head”
“Com as coisas que pudesses fazer, não vais fazer mas podias
O potencial que tu vais ser o que nunca vais ver
As promessas que apenas vais fazer.
Bebe comigo agora e esquece todo o resto acerca
Da pressão dos dias, faz o que eu digo
E vou deixar-te okay e fazê-los ir embora
As imagens fixas na tua cabeça.”
“Between Bars”, de Elliot Smith

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