Playlist: “Me Curar de Mim”, por Flaira Ferro

A música está em todo o lado. No elevador, na rua, no supermercado.Mesmo quando os carros não traziam o equipamento de série, já tinham lá um compartimento onde colocar o autorádio.  É indiscutível. Está em todo o lado. Está tão “em todo o lado”, que chega a estar dentro de nós, quando temos aquela música a repetir até ao infinito na nossa cabeça.

É por isto e muito mais que decidi iniciar esta rubrica. Porque as músicas que ouvimos todos os dias na rádio dizem-nos muito. Quando um artista escreve e representa uma música, está a comunicar com cada um de nós. Mas uma música não é uma refeição de 4 pratos. É uma só dose completa que nos preenche e nos arrebata de tantos sabores que tem ali, sem nunca perder a essência e individualidade de cada um deles. Aqui, proponho-me a trazer uma música de cada vez. Vou explorar tanto quando a minha imaginação e curiosidade me permitir, e levar esta música mais longe, até onde não tinha ido antes, com um único propósito. Levar-te a ti, a um lugar novo, onde tu próprio nunca tinhas ido antes.

Para começar, trago uma música de Flaira Ferro (letra e música), “Me Curar de Mim”.

A personagem começa exactamente a reconhecer que é um Ser imperfeito – a “maldade” – mas diz que está em crise. Ela sofre por reconhecer que é imperfeita e que nem todos vêm o que ela está a ver. Decide que quer limpar essa “maldade” e, no processo, descobre que o seu Ego lhe dificulta essa limpeza e que é o próprio sofrimento do Ego (por estar em crise) que lhe dificulta o processo de cura.

O conflito pessoal com o ego é algo presente em toda a música. Fala numa “armadilha” do ego quando estamos a apontar os defeitos dos outros e devíamos, em primeiro lugar, olhar para nós mesmos. A mudança que podemos fazer é em nós, e não nos outros. A vaidade, que é olharmos desmesuradamente para nós mesmos – mais uma vez, o Ego a sobressair -, cristaliza exactamente esse ponto de vista. A nossa relação com os demais sai prejudicada quando damos mais atenção a nós mesmos e à nossa vaidade.

Na cura que a personagem atravessa, há um processo que a artista coloca de uma forma muito interessante “Pra me encher do que importa \ Preciso me esvaziar”. Nesta altura, ela regurgita tudo quanto é defeito Humano, tudo quando é mau, e que lhe doi profundamente fazer essa expurga. Mas é esse purgar de tudo quanto ela não quer que lhe vai dar espaço no seu Ser para se preencher de sentimentos mais elevados. Afinal, apesar de doer, que outra forma de curar o seu Ser pode haver senão encarar os seus defeitos, tudo o que ela não quer nela? Ela não sabe, mas está à procura.

Esta música traz-nos uma perspectiva pessoal de elevação do Ser, de cura pessoal e de um processo que tendemos a fugir (encarar os nossos defeitos), mas que é chave no nosso processo de construção pessoal.

José Martins

Conhece mais sobre a Playlist do Viver a Cores – Sons que vibram em ti:
Youtube: Playlist “Sons que vibram em ti”
Spotify
: Playlist “Viver a Cores: Vive a tua vida a cores”

“Me Curar de Mim”, por Flaira Ferro

Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio

Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. Só sei que a busco em mim
Só sei que a busco

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