Jaqueline Reyes: Crescer

Já escrevi sobre como o tempo anda a correr, mas há momentos na vida onde a certeza disto ocorre e ontem  foi um destes dias. Quem tem filhos sabe que do sentimento ambíguo que se tem de que eles cresçam rapidamente e ao mesmo tempo que não. Bem, então quando isto anda na fase entre os 18 e 21 anos é que ficamos mesmo divididos, porque já não nos pertencem e ao mesmo tempo são tão nossos.

Olho para cada uma das nossas meninas, sim aqui em casa só meninas, e vejo nelas um pouco de cada um de nós e dos nossos antepassados, mas também me surpreendo com a parte que é mesmo delas e só delas. E é na parte que pertencem a elas e que vão se revelando aos poucos na medida em que crescem e amadurecem é que as surpresas são mais do que muitas. Claro que conhecemos as nossas, tivemos o cuidado de saber sobre o elas tudo o que poderíamos saber seja com ajuda de terapeutas, seja com estudos astrológicos e numerológicos, usamos todas as ferramentas possíveis para as ajudar no melhor e pior delas porque percebemos que nem sempre os nossos pais o fizeram, e aqui é dito isto sem sentimento algum que não seja gratidão por eles que fizeram o melhor que podiam e que poderiam dentro do que viemos viver e aprender.

É importante que cada pai e mãe perceba que faz o melhor que pode com o que se tem, porque vamos “errar” e “acertar” nas inúmeras vezes em que só queremos o melhor para eles. Mas sabe, a dor e a frustração que nós vivemos um dia nos ajudou a ser mais fortes e independentes, então não há maneira de tirar toda a dor e pedras do caminho dos nossos filhos, por mais que queiramos e eu digo que quis e quero muito… só que sou obrigada a aceitar que a vida tem muitas variantes que nos formam e humildemente perceber quais são importantes e quais não são.

A tarefa de sermos pais é talvez das mais complicadas desta vida, aprendo todos os dias com as nossas a como ser melhor pessoa, a como contar até 100 ajuda a não piorar uma situação que por si só já é complicada, são tantos os aprendizados que acontecem num único dia que no final do mês é contar as vitorias e derrotas…risos…e perceber que sobrevivemos as pequenas batalhas todas.

Uma destas batalhas tem haver com algo simples que são relações humanas, e que esta geração por um lado quer tanto o “amor” único e definitivo e por outro se escondem atrás das máscaras do “aproveitar a vida”. Como fazer entender aos jovens que não precisam de pressa para o amor e nem para a vida, que ambos acontecem na medida em que estamos prontos e não na medidas do nosso querer?!? Aqui em casa temos acordos sobre os horários e os compromissos, e claro que há a celebre frase “os meus amigos podem e eu não” e que se soma a celebre resposta “você não é o seus amigos”. Tenho certeza de que já ouviram estas duas ao longo das vossas vidas, e porque elas se repetem? Simples demais, já fomos da idade deles…risos… os cabelos brancos ou pintados podem disfarçar um pouco, mas um dia tivemos estas mesmas urgências de liberdade e de viver.

A vida é cíclica, e se chegamos nestas idades e com estes aprendizados foi porque em algum ponto os nossos pais e a própria vida nos fez perceber os limites, nos agraciou com uns quantos e sonoros nãos, e tudo bem, porque aprendemos a respeitar, a lutar e defender o que queremos, aprendemos a deixar ir e perceber que há caminhos e pessoas que melhor mesmo deixar ir, aprendemos como queríamos educar os nossos filhos por exemplo. Aqui as meninas brincam que sou uma mãe latina e se por um lado é elogio, por outro quer dizer que pisa na linha para ver o que acontece…risos… e elas sabem que respeitar os limites é regra fundamental entre nós todos. Porque escolhemos o limite ao invés da culpa ou medo? Sim, esta deve ser a pergunta importante aqui, porque ela tem um desenrolar tão diferente lá para frente que pode ser a chave do sucesso ou o fracasso do que andamos a plantar.

Não posso falar a cerca das escolhas de cada pai e mãe porque é muito própria, mas como terapeuta vejo tantas crianças que se perdem pela falta de limite, pela falta de não mas também pelo excesso de não excesso de limite. Então, tendo em conta isto fomos nos abrindo para perceber cada uma das nossas filhas, o que cada uma precisava para ser o melhor dela mesma e como lidar com cada uma, porque uma bronca bem dada numa não resulta na outra… e entre acertos e erros, entre muitos conceitos de como deve de ser e como é de fato, fomos nos apercebendo de uma verdades que não são bem assim, tais como “criança se adapta”, “faz o que quero ou não faz”, “quem manda sou eu”.

Para cada perfil de criança uma atitude, um remédio, uma terapia, uma forma de ser e ver o mundo. Então optamos pelo limite, para que cada uma pudesse ser quem é mas que nós enquanto pais também pudéssemos ser quem somos, não queríamos alguém com medo ou culpa por viver quem se é, mas queríamos pessoas responsáveis pelas suas vidas e suas escolhas, mas para isto elas precisavam perceber os limites inerentes a serem quem são. Dá trabalho? Dá muito trabalho no começo, até que fique claro quem manda e porque manda, mas depois que as crianças entendem as regras vai ficando mais fácil de viverem e isto lhes dá segurança para irem as suas vidas, mas também de confiarem que nós estamos aqui para elas seja qual for a situação.

Este final de semana a nossa mais nova venceu a si própria aceitando o desafio de sair da zona de conforto enfrentando a própria timidez, e quem tem filho tímido sabe o desafio que é a questão da exposição, então cada passo que ela dá por escolha própria neste sentido é uma vitória dela e nossa. Porque não adianta acelerar o tempo dela nisto, então nos resta apoiar, respeitar o limite dela e ir celebrando cada passo dado. Fácil escrever e acredite que viver isto com paciência é o nosso desafio.

E já que falei da mais nova, também vou falar da mais velha, que vira para mim e diz que precisa aceitar as escolhas de uma determinada pessoa, ainda que lhe seja difícil de o fazer, porque percebeu que esta pessoa tem estabelecido para si objetivos que não são os que ela quer. Fiquei ali olhando para aqueles olhinhos tristonhos e ao mesmo tempo que me senti orgulhosa dela, fiquei com uma vontade de ir lá dizer para a “pessoa” acorda para vida, e sabe a resposta da minha filha para mim: vocês me ensinaram a respeitar as escolhas de cada um. As sementes brotaram direitinho então valeu o esforço todo, valeram todas as vezes onde nos sentamos com ela a conversar, a dizer não e a explicar porque não e porque sim, valeu tudo o que andamos a fazer e ainda fazemos.

O que quero dizer, é que isto de formula mágica para sermos pais não existe, o que é existe é buscar conhecer seu filho para poder ver qual a melhor forma de o educar. Não adianta dizer para alguém com muita energia de fogo que fique calma, sente e respire, porque isto o vai deixar pior a curto e longo prazo. Não adianta dizer para alguém que tem muito elemento água que se foque em montar legos, porque não vai aguentar por muito tempo e aí a frustração vai rolar… procure conhecer o seu filho, procure se conhecer como pessoa e como pai/mãe para que ambos possam viver o melhor desta relação que é a base de todas as relações.

Aproveita as férias e os seus filhos, que a vida é demasiado rápida para gente perder tempo com pedrinhas do caminho.

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