Vem comigo ser Hygge

Conheci por acaso uma rapariga Dinamarquesa, Mia Wegener, que andava perdida na zona do Campo Pequeno à procura da estação de comboios do Campo Grande. Em Português enferrujado confidenciou-me que somos muito complicados a dar nomes a Praças e Ruas e agradeceu-me por ter sido tão paciente com ela e de lhe ter explicado a diferença entre campos.
– A última pessoa com quem falei disse-me que estava numa zona com o Campo Grande de um lado, o Campo Pequeno do outro e a zona de Entrecampos mesmo aqui ao pé. Muito Campos. Pode-me ajudar?
Imaginem a confusão na cabeça desta jovem. Parámos, por um momento, mesmo em frente à Praça de Touros. Sentámo-nos e expliquei-lhe tudo direitinho no mapa amachucado que a Mia tinha no colo. Tem 21 anos, deixou a Dinamarca em Novembro e quis vir conhecer a pátria berço de Amália Rodrigues.
– Os meus pais vieram a Lisboa passar em Lua de Mel nos anos 80 e a minha mãe comprou um CD da Amália. Eu e a minha irmã crescemos a ouvir esse CD e, sem entendermos uma única palavra, tentávamos imitar. Fomos aprender Português só para traduzir as letras dos fados aos nossos pais. Após o falecimento da minha mãe, emocionamo-nos sempre muito quando ouvimos a Amália a cantar. Vim para cá para perceber se a vida em Portugal é assim tão triste como a Amália nos faz sentir.
Triste? – Pensei eu.
Começámos então a falar do chamado hygge. O tal princípio de felicidade do povo Dinamarquês, que está tão em voga hoje em dia. Trata-se tão e somente de viver o presente e tirar partido das pequenas coisas. Apreciar os momentos bons da vida. Ter o chamado “aconchego”.
Será, então, este o segredo da felicidade? Serão mesmo os Dinamarqueses o povo mais feliz do planeta?
Quis saber mais sobre este “modo de vida” e pedi que a Mia me desse exemplos práticos, pois teoricamente o hygge é um estado de espírito que se aprende em pequenino e eu queria muito perceber se ainda vou a tempo de o adoptar.
– Ser hygge é sentir o calor da chávena de chocolate quente quando seguras nela. É estar junto à lareira e estarem 15 graus negativos na rua. É convidar os amigos para um jantar e acender velas por toda a casa. É escrever uma carta de agradecimento a um amigo, em papel perfumado e com uma caneta de aparo. É sentir o cheiro de um bolo acabado de fazer e recordarmo-nos da nossa avó. É colocar mantas quentes nos joelhos do nosso avô quando ele adormece no sofá. É deixar o carro em casa e utilizar a bicicleta. É brincar no chão com os nossos sobrinhos, dar-lhos o nosso tempo e o nosso sorriso. É apreciar o nascer e o pôr do sol em silêncio. É ouvir os pássaros a chilrear, a chaleira a apitar. Tudo isto com consciência. Connosco mesmos, com os amigos ou com a família.
Descobri, naquele momento, que sou hygge ou que me sinto hygge há muito tempo. Durante algum tempo achei que me tinha tornado uma pessoa mais “sensível” ou mais descontraída, pois revi-me em muitas das coisas que a Mia definiu como felicidade. Também eu aprecio os crepitares das lareiras. Adoro calçar meias felpudas no inverno e caminhar descalça na relva no verão. Adoro ter os amigos e família por perto. Abrir uma boa garrafa de vinho para partilhar com eles. Fazer um bolo de chocolate carregadinho de amor e cortá-lo em fatias generosas. Adoro o silêncio tal como adoro uma boa gargalhada. Adoro mimar, amar, aconchegar, beijar e abraçar aqueles que amo.
Hygge ou não desde pequenina, sinto que tenho muito em comum com a Mia no que diz respeito ao conceito de felicidade. Andamos ambas à procura do nirvana mas no nosso caminho já descobrimos muitos oásis intermédios, onde descansamos, nos revigoramos e sorrimos.

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