Damos com uma mão, o que tiramos com outra.

O que vos sugere esta foto?
– Um momento de ternura?
– Privação de liberdade?
– Um mal menor?

Desde já vos adianto, para que possamos estar em pé de igualdade, que estes incríveis animais habitam o Zoo de Lisboa.
Cada cabeça sua sentença?
Pois com certeza e ainda bem!
É esta multiplicidade feita de singularidades que faz da vida, esse lugar fantástico que não me canso de admirar.
Dela, diz-se que nasce a luz. Da discussão de ideias, está bom de ver.
Desafio-vos pois, para uma reflexão conjunta. Desta forma encontramos outros pontos de vista, diferentes ângulos, novos prismas, renovadas perspetivas, alargamos os horizontes, concordam?
Sentem-se confortavelmente, podem até tomar um chá ou um chocolate quente.
E por favor, sintam-se completamente à vontade para discordar do que aqui se escrever.
O Jardim Zoológico de Lisboa está colado à minha infância. E à vossa, não?
Muitos domingos rumávamos em família, até Sete Rios, de transportes públicos, entenda-se, que carro particular era luxo só ao alcance dos mais endinheirados. Eram sempre dias de grande agitação. A Mãe preparava o farnel, com tudo aquilo que só nos era permitido comer, nos picnics. Eram sempre momentos inesquecíveis, os que passávamos no Zoo. Admirávamos
os animais, comíamos gelados, andávamos no pequeno comboio, que incansável, percorria todo o recinto vezes sem conta, esvaziávamos o cesto dos petiscos e ainda havia tempo para uns treinos ( e respetivos trambolhões), com os patins que a Tia Luisa tinha trazido de Luanda.
A vida lá correu como tinha de correr e também eu, um dia fui Mãe. E sim, também eu, desde muito cedo, fiz questão de levar o meu menino ao Jardim Zoológico!
Muitos dos aniversários do Pedro, agora com 27 anos, eram por lá passados. Os avós faziam-nos companhia e por lá se cantavam parabéns e comia-se bolo.
Cresci num tempo em que pouco se questionava ou refletia. Era como se tudo o que existia fosse inquestionável, pelo simples facto de existir. No meu tempo de menina, só o percebi muito, mas muito mais tarde, este espaço não passava de uma montra de animais, estrategicamente colocados em função do conforto dos humanos. Havia sombras para os humanos, havia bancos para os humanos e quem queria saber se os animais eram felizes? Não se pensava nessas coisas era mesmo assim, sem complexos, ou sentimentos de culpa. Havia até os elefantes que transportavam os meninos sentados em cadeiras presas aos flancos do animal, em passeios de vai e vem. Era vê-los pachorrentos, conformados.
Agora até me dá vontade de chorar, mas havia uma espécie de carrocel, feito com póneis de verdade, presos a um qualquer artefacto que os obrigava a andar em círculos, com as crianças às costas, tantas vezes debaixo de condições climatéricas completamente adversas.
Até final da década de 90 do século XX, havia até um elefante que recebia uma moeda com a tromba e a troco de um amendoim, ia tocar numa sineta, para contento de miúdos e graúdos.
E eu também lá estive, confesso-vos, era assim, o mundo era do Homem!
Após o 25 de abril de 1974, o Zoo passou por um período crítico e havia escassez de quase tudo. Nalgumas das visitas víamos muito sofrimento, muito abandono, muita fome. A venda de bilhetes não conseguia cobrir as necessidades mais básicas de tantas bocas e tantos bicos.
A verdade é que as coisas melhoraram. Demorou anos, mas pelo menos começou a haver alguma preocupação na recreação do habitat natural de cada um daqueles habitantes forçados.
Conheci pessoalmente, alguns dos profissionais que faziam parte de uma equipa multidisciplinar, com grandes valências e vontade de fazer coisas positivas. Vi de perto o carinho que dedicavam aos animais. Falaram-me das preocupações em preservar espécies em vias de extinção, da alegria de ver reproduzidos em cativeiro muitos animais, da recolha de
bichinhos feridos e da sua reabilitação…Encontraram-se padrinhos que ajudavam a cuidar dos ‘seus afilhados’. Reabilitou-se todo o espaço envolvente e encontraram-se novas fontes de receita. Nasceu a vontade de ensinar e sensibilizar os visitantes e muitos dos principais zoos do mundo começaram a trabalhar em rede, de forma a potenciar conhecimentos e valências.
Mas o que dá ao Homem, o direito de querer alterar as leis da natureza?
Que legitimidade tem o ser humano de privar os outros animais da sua liberdade?
Andámos anos, a destruir a natureza, a destruir o habitat natural de tantas espécies, queimando, transformando e cortando florestas, inundando os mares de plástico, poluindo a atmosfera e tudo isso, sem culpa, empoleirados no estatuto que a racionalidade supostamente nos conferia. E depois montamos prisões a céu aberto e enfiamos lá, todos os animais que
conseguimos capturar para depois os protegermos. Não será tudo isto uma aberração? Uma contradição?
Ao longo de muitos milhões de anos a natureza fez a sua seleção natural sem intervenção humana, em equilíbrio. Depois apareceu o bicho homem, que começou por ser só mais um, em igualdade de circunstâncias, mas descobriu-se o fogo, o Homem tornou-se sedentário e daí até escravizar outros seres, foi um passo.
Felizmente que as consciências estão a mudar, muito por força das evidências de um planeta à beira do desespero e da exaustão.
Finalmente questiona-se a existência das touradas, a utilização de animais em circos, o tráfico de animais selvagens, o comércio de animais de estimação, a produção intensiva de carne para alimentação humana.
Finalmente a legislação, ainda muito a medo, começa a penalizar quem mal trata animais, quem comercializa peles, marfins, crias… é um princípio, talvez uma pequena luz!
Mais do que leis, precisamos mudar consciências e essa é sem dúvida a mais difícil das tarefas.
A mudança começa em cada individuo. E esta, talvez seja uma verdade que nos aconchega, porque também nesta matéria a solução está dentro de nós!
E agora o que vos sugere esta foto?
Há mais chá no bule, para o caso de querem continuar a nossa reflexão. Sim, concordo, estes dias frios de chuva, desprendem-nos os pensamentos…
Ângela Rego (Foto)
Paula Castanheira (Texto), Janeiro de 2019

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