Aventuras de um gato chamado Sebastião

Quando regressava a casa vinda de um passeio a pé ouvi, de dentro de uma silveira, um miar fraquinho. Procurei e vi uma bolinha de pelo, muito pequenina. Era um gatinho pequeno, muito pequeno.

Arranhei-me toda mas apanhei-o. Cabia-me na palma da mão.

Meti-o no bolso do casaco e levei-o para casa. Era preto. Os meus netos batizaram-no de Sebastião. O Sebastião era considerado por toda a gente da casa como um rei. Dormia belas sonecas ao nosso colo. Dormia no sofá, na beira da lareira. Enfim: um senhor.

Mas foi crescendo e quando nos apercebemos era um gatarrão enorme.

Elegeu, por sua própria vontade dormir no peitoril da janela da sala. Via a rua e gozava com os outros gatos que não tinham as mesmas mordomias.

Uma tarde de sol, empoleirou-se, como de costume na beira da janela.

Os olhitos foram-se fechando, a cabeça também se aninhou nas patas enroladas ao seu jeito e o rabo longo e farfalhudo em volta do corpo, como costume de todos os gatos quando estão confortavelmente deitados.

Fora da janela um bando de borboletas. Grandes, lindas.

O gato levantou-se de mansinho e perguntou-lhes porque tinham asas tão coloridas. A mais velha disse-lhe que antigamente as asas eram todas brancas, mas que numa tarde de primavera o vento forte resolveu brincar e espalhar as cores do arco iris. As borboletas fizeram uma roda e o vento fixou as cores assim espalhadas nas suas asas. E riram contentes das cores que conseguiram apanhar.

O gato satisfeito foi andando, também ele contente do passeio naquela tarde linda.

Ficou a pensar o que seria o arco iris de que as borboletas lhe falaram. Que tinha cores, sabia porque elas lho disseram.

Mas como seriam?

Olhou para cima e no céu lá estava ele: o arco-íris. Um arco com todas as cores: Vermelho, amarelo e azul. Afirmou-se mais e ainda descortinou o laranja, verde, anil e o violeta.

Ah! Era aquilo o arco-íris: Lindo, lindo.

Sentou-se.

De um dos lados ouviu um arrastar de folhas.

Admirou-se. Um dragão. Tinha o corpo coberto de escamas verdes, olhos vermelhos e um focinho grande com a língua de fogo.

Assustou-se. O dragão abriu a boca e enquanto o gato se encolhia com medo o dragão disse-lhe que não tivesse medo. Estava ali para brincarem os dois.

O gato olhou desconfiado. Um dragão? Hummmmmmm Aquilo não batia certo e foi embora.

Lá ao longe uma pata gansa com os filhotes por perto. Ela sabia do dragão. Também sabia que os gatos não são os melhores amigos e desviou caminho.

Por perto e distraído um rato saiu do buraco da parede e olhando o gato quietinho deu meia volta para ir embora. O gato chamou:

– Pst pst. Olha lá. Eh!Tu aí.

O ratito pensando que o gato o ia comer deu uma corrida. O gato chamou mais uma vez:

– É contigo. Anda cá! E num salto agarrou-o pelo rabo comprido. O ratito esperneou mas chegando à conclusão que fugir não resolvia nada, sentou-se e perguntou:

– Eu sei que os ratos são um petisco dos gatos. Vais comer-me?

– Claro que não! Para que quero eu um ratinho como tu, se tenho comida com fartura. Da melhor!

Os meus donos, além de brincar comigo, dão- me a melhor almofada, o melhor lugar para me aquecer, dão-me colo. Não te vou comer. Tu que comes? Já vi borboletas lindas, vi um dragão com a língua a deitar fogo, uma gansa e gansitos e agora um ratinho.

O ratinho disse-lhe que comia restos de pão, roía nozes com os dentinhos afiados, bolotas e raízes.

– Só isso? Disse o gato. E dando um salto respondeu-lhe.

– Eu adoro queijo. Muito queijo!!

E deu um salto, batendo com a cabeça no vidro fechado da janela.

Tinha sido um sonho. O gato a dormir imaginou tudo isto e o enorme queijo não era mais que a lua cheia que viu no céu porque entretanto se fizera noite.

 

Natércia Martins

2019

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