Nicolau, o executivo português que pensa diferente

Imaginemos um executivo de uma grande empresa portuguesa, na época festiva do Natal.

Todos os dias lhe são entregues presentes vindos de várias proveniências: fornecedores, entidades, conhecidos, amigos e organizações que ele nem sequer conhece.
Hoje chega um conjunto de garrafas de vinho, amanhã vai receber uma cesta cheia de bacalhau, frutos secos, licores e bolachas. Ontem já recebeu um decantador, uma casinha de bolo de gengibre e duas caixas de bombons.
Nos anos anteriores, o Nicolau – vamos chamar-lhe assim? – levava os seus presentes para casa e fazia logo uma seleção: “Isto é para mim, aquilo é para dar à minha cunhada Maria já que ela adora doçuras, e aquela caixa nem sei bem o que lhe vou fazer, fica praí”.
Este ano, o Nicolau decidiu ser diferente. Decidiu que não era um saco de nozes e não-sei-quantos litros de vinho que o iam fazer mais feliz. Vai colocar todos os presentes que receber na sua sala de reuniões e vai etiquetá-los com um número. No dia 9 de Janeiro, findos os Reis, vai fazer um leilão de todos os presentes que recebeu num lanche com os seus colaboradores para angariar dinheiro para comprar uma cama articulada para a Teresa, uma menina que nasceu com uma doença rara.
O Nicolau cansou-se de receber. Cansou-se de levar para casa um dos maiores embustes do Natal: dar porque sim. Dar àquele director porque ele me fez um favor; dar aquela senhora que é secretária do fulano-de-tal porque ela consegue sempre passar as chamadas à pessoa certa; dar ao senhor secretário-geral porque agilizou a assinatura de um contrato. O Nicolau cansou-se de ter de premiar quem já por si deveria fazer bem o seu trabalho. O Nicolau cansou-se de dar para manter aparências. O Nicolau cansou-se de dar e de receber para fomentar os lobbies do costume.
Sentado na sua secretária despojada de quinquilharias (também estas o Nicolau deu para a quermesse da Igreja), Nicolau escreveu uma carta a cada empresa, pessoa, organização e entidade que lhe enviou um presente. Agradeceu o gesto com amabilidade, evocou o espírito do Natal e pediu a todos que, no próximo ano, não lhe enviem ofertas natalícias mas que contribuam para apoiar as inúmeras Teresas que existem pelo país e cujos Natais nem sempre são felizes e fartos.
A mensagem que Nicolau vai passar aos seus colaboradores não será só de esperança. Será uma mensagem de despojamento, coração cheio e desprendimento. Este gesto de Nicolau não significa que não goste de receber e de dar. É apenas sinal de uma evolução pessoal no sentido de uma solidariedade completamente sã e nada confundida com “caridadezinha”. Essa sim, deixaria o Nicolau bastante incomodado.
Há algo que o Nicolau ainda não sabe: Os destinatários da carta que Nicolau escreveu vão parar por um momento e vão pensar. Uns vão rir, outros vão desdenhar, alguns vão ovacionar e pouquinhos vão imitar. A moral da história é que nenhum vai ficar indiferente a este gesto diferente, de um executivo diferente, que ousou pensar diferente.

Carla Soares

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