“Vamos Comprar Um Poeta”, por Afonso Cruz

Março é mês da poesia, que se celebra dia 21 mas que gosto de prolongar por todos os restantes. Por isso decidi este mês falar de um livro cheio de poesia, quase sempre ironicamente camuflada. É um livro do Afonso Cruz. E quando falamos do Afonso Cruz dificilmente conseguimos dizer alguma coisa que saia do habitual, ou que contrarie a opinião comum. Nem sequer vou tentar fazê-lo, portanto. Só o descobri em 2015 numa altura em que a falta de concentração e o stress me tinham retirado o hábito da leitura. A cada segunda página de um novo livro cansava-me, punha-o de lado. Todos os livros me pareciam enfadonhos (e eu que sempre fui o que carinhosamente se chama um ratinho de biblioteca). Costumo dizer que o Afonso Cruz me salvou em termos literários. Por tudo isto, tento não abusar na sua leitura e ir deixando livros por ler, ter sempre uma dose de boa literatura à mão para qualquer eventualidade, como um ben-u-ron.

Vamos Comprar um Poeta é um livro pequenino, mas que assume o tamanho do horizonte de cada leitor. É um livro de palavras pesadas — cotação, patrocínios, produtividade, investimento, finanças — e um livro de palavras leves — borboleta, raiz, janela, mar, poema. Cabe ao leitor colocá-las na balança que equilibra a utilidade e a inutilidade. Ou tomá-las na mão e sentir-lhes realmente o peso. Um livro tão pequeno julgo que é mesmo de peso que trata. O peso da realidade economicista, o peso da contribuição para a dinâmica social, o peso do lucro. E, por outro lado, o peso do ócio, o peso da inutilidade e o peso da metáfora, que nada tem a ver com a mentira. Afinal para que serve a poesia se podemos reduzir tudo a números? Se temos o pragmático do nosso dia-a-dia para quê perturbá-lo com o inútil? Um poeta comprado por uma família que tem a preocupação constante de fazer a economia circular vai obrigá-los a refletir e a balancear valores e necessidades.

E se logo no início do livro nos choca: «Gostava de ter um poeta. Poemos comprar um.», à medida que a leitura vai fluindo (e flui mesmo, este é um livro que não se pousa a meio, abre-se e leva-se até ao fim, de uma assentada), o choque inicial vai-se transformando em agonia: aquela luta interna que travamos com a consciência e com as vísceras. Tanto que, quando a meio do livro nos é descrito «Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares.», isto já não nos choca como os momentos iniciais. Já só nos empurra mais um bocadinho para bolsas e cotações.

Neste livro, se existe um Belzebu este assume o nome de Bancarrota. E uma divindade não poderia ter outro nome que não Mamon. Mas no meio disto tudo, uma janela sobre o mar pode ser uma frase escrita a caneta de feltro. Numa parede de um vão de escada.

Vanessa Martins

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