O Manual de Instrução que faltava

Escrever para os pais, isto porque sou parte deste clube, sobre algo que chama imenso a atenção e pouco se fala, ou muito se fala já nem sei, porque no fundo sempre há alguém com uma receita infalível sobre como educar, como ser ou não ser. Enfim, posso dizer honestamente que amo ser mãe, mas nem por isto é fácil sê-lo, ao contrário é de tudo o que já fiz ou faço, do mais complicado e difícil. Sempre ouvia frases do género “quem cria um filho, cria dois ou três”, e ficava pensando com os meus botões que eu de fato deveria ser muito má mãe, porque nunca na vida diria algo assim, e olha que já se passaram 15 anos e ainda não poderia de alma leve dizer isto. Então, o que se passa?!?! Será que sou eu ou é algo que não estou vendo?!?! Será que o povo tem algum manual de instrução que não me deram na maternidade?

Bem, comigo e com o meu marido posso dizer que foi e é um aprendizado todos os dias de amor, de limites, de identidade, de ignorância, de buscar por respostas, de não saber o que fazer, de procurar ajuda, de saber claramente o que fazer, os altos e baixos todos que puderem imaginar e mais alguns. E aos poucos fui e fomos descobrindo algo muito profundo e verdadeiro, mas que ninguém lhe diz para não ofender os seus ideais, ou crenças. Mas fato é que: não existe certo e errado definitivo para educar um filho, existe bom senso, existem milhares de dúvidas, existe boa vontade, existe cansaço, existe perda de identidade individual (deixamos de ser pessoa A ou B para sermos os pais de A ou de B), bem a lista é demasiado grande para caber aqui então fico por estas já mencionadas, mas o importante é que cada um olhe para si mesmo e se perceba, para só então poder olhar para o seu filho(a) e o poder minimamente perceber como outro ser, que não é nossa extensão, é só mais um Ser igual a você, mas não é você.

Então, posto tudo isto, vou ao ponto. Se não há manual, se as várias escolas e filosofias dão formulas tão distintas, como podemos educar uma pessoa para o Bem?!?! Resposta mais velha que a vida, que os pais dos nossos pais usaram e que poucos de nós atualmente usamos: presença e limites. A presença é estar mesmo ali, é dar exemplos, é ouvir, rir, chorar, é ir a reunião de pais, é ver o seu filho(a) como ele é, e não como alguém lhe diz ou você próprio espera que ele seja. A presença inclui tempo e com ele, contar histórias para adormecer, ouvir as bandas sonoras deles, é ver filmes e séries que só por Deus mesmo, enfim é participar. O tal do “não basta ser pais, tem que participar” é mesmo assim. Por outro lado, é o limite, não adianta terceirizar o seu filho com empregadas, ou avós, ou colégios, educar não é papel nem de um e nem de outro, porque impor limite é duro, dizer mil vezes que coma com a boca fechada, que “por favor” e “obrigada” fazem a diferença numa conversa, que esperar pela sua vez é, no mínimo, gentil da sua parte, que mentira nunca trará nada de bom… coisas da educação do ser.

Limite é uma linha condutora que não quer nunca traduzir limitação. Limite é perceber até onde o seu filho pode ir com uma atitude sem que o embarace a ele e aos que estão próximos dele, que não coloque a vida dele em risco e nem a de ninguém. Então, me explica porque vemos por aí tantas crianças mal-educadas, que mandam nos seus pais, que fazem birras que não lembra a ninguém, que gritam com os professores, que mentem e enganam seus amigos, e mais uma infinidade de desajustes que com certeza deve lhe vir à mente neste momento. O que passou aqui?!?!

E na outra linha disto está a limitação que alguns pais aplicam aos seus filhos não permitindo escolhas e responsabilidades individuais, que fazem parte do Ser e do Crescer. Há crianças com medo de falarem, de Serem, de brincarem… crianças que já possuem os olhos de velhos desiludidos e ainda não chegaram aos catorze anos de idade sequer. Limitação é em última instância o medo e a insegurança de um adulto sendo imposta a uma criança. Então o problema é mais grave, porque quem precisava de ajuda era o adulto que adultera a criança, e não o contrário.

Só posso dizer que quando vejo uma criança sem limite ou uma criança limitada fico a pensar: pôr mais psicólogos por favor! Por mais gente séria a ajudar, sejam de que área forem, porque o mundo, para ser melhor, precisa que cada um de nós estejamos no nosso melhor, sejamos inteiros, sejamos autênticos e que saibamos respeitar os limites de cada um e o nosso próprio, precisamos mesmo de mais gente honesta e verdadeira que reconhece o valor do limite e não da limitação.

Porque escrevo sobre isto hoje?! Simples, como pais educamos as nossas para serem quem são, e serem o melhor que podem, para serem honestas e admitirem erros, para conversarem e ouvirem o que os demais tem para dizer, para defenderem as pessoas que precisarem e no que acreditarem. Era assim que deveria ser com todos, não acham? Era assim que elas pensavam que os colegas iriam se comportar, mas que nada, o que elas encontram numa maioria é exatamente o oposto disto, é a distorção total da verdade, da empatia, da clareza e do respeito. Mas a culpa é da criança?! Não, a responsabilidade é inteiramente dos pais, mesmo que digam, mas olha os pais de fulano são ótimos, mas o filho é “assim”. Por isto, quando comecei a escrever este texto, coloquei que ser pais é muito complicado, há momento onde só posso dizer que é um trabalho para fortes, muito fortes mesmo, vai tirar não só o seu sossego, mas vai também queimar seus neurónios, fará você ter que rever todas as suas crenças e ilusões sobre educar e educado. Vale a pena?!?!

Vai valer a pena se usar as dicas mais antigas do mundo: amor em forma de presença, de apoio, de respeito e limite como linha condutora para a vida!

Então, antes de dizer que terapia não ajuda, procure ouvir outros pais, procure ler um pouco mais, dê-se ao trabalho de conhecer a si mesmo e ao seu filho melhor. Porque um terapeuta não vai curar nada, mas pode ajudar e muito a encontrar respostas para que você próprio se ajude. Enfim, viver é um processo e ser pais é um processo e meio, porque vai ter sempre muito trabalho e, portanto, se pensa que criar um é o mesmo que criar dois ou três, não se engane. Cada filho é um mundo próprio com identidade própria e vai ter que descobrir a melhor maneira de chegar até cada um e os ajudar a serem o melhor que podem ser.

Se calhar é hora de cada um de nós dar um “pause” no automático e rever tudo, sempre é tempo de mudar, de transformar, de curar, de dar outra direção a vida e as relações, mas se não houver estes cinco minutos, vamos só seguir como sempre e querendo resultados diferentes. Como diria Einstein: “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Jaqueline Reyes

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