Aventuras de um botão

Tenho uma caixa de costura completa. Tem agulhas de coser as bainhas das calças, um dedal para não picar o dedo, tesoura, fita métrica com números pintados de cores vivas e um pequeno compartimento com botões.

Quem precisa de um botão vai lá e escolhe. É que há botões de várias cores. Há com feitios de flores, brancos, pretos, vermelhos, rosas e um que era do meu bibe de bebé. É um pequeno automóvel.

Todos misturados. Quando alguém precisa, vai lá e não tem cuidado nenhum. Cada botão dá cá umas quantas voltas.

Há por lá esquecido um botão que nunca serviu para nada. É verde, muito feio, e de vez em quando, dá umas tantas cambalhotas provocadas pelos dedos de quem vai à procura de um botão. É verde-escuro, feio e tem quatro furos.

Um dia, pôs-se a ver se os outros também eram do mesmo feitio. Tinham quatro buracos outros só dois buracos, ainda outros com um pezinho nas costas, outro amarelo com feitios gravados. Tinha pertencido a um oficial do exército. Um vaidoso no meio dos outros todos.

Um dia a caixa abriu-se e alguém atirou lá para dentro um botão grande e preto. O botão deu uma série de cambalhotas até que se sentou num cantinho admirado.

– Onde é que estou? Caí aqui dentro, atirado sem cuidado. Pertenço a um capote e o meu dono deve andar à minha procura.

O botãozinho verde deu uma risadita a medo.

– Agora estás aqui no meio de nós todos, abandonado e sem utilidade. Olha, nunca mais te encontram!

– Mas eu sou de um capote. Faço falta!

– Olha o vaidoso!

– Eu sou grande – disse o botão preto.

– E eu sou amarelo – disse um outro. Sou muito bonito.

– Olha, vale-te de muito! Estás aqui no meio de todos nós, dentro da caixa dos botões velhos.

Um dia, a caixa abriu-se e uma mãozinha pequena procurou botões geitosinhos e que lhe davam interesse para brincar com os amigos, na rua. Remexeu nos botões e foi tirando. Tirou alguns pretos e o verde também foi.

Quando se viu na mão do menino fechou os olhos, desconfiado. Foi abrindo, primeiro um, depois o outro, devagarinho e achou graça. Como era tudo tão bonito cá fora, ele que tinha passado tanto tempo no escuro da caixa.

Agora via o dia, o sol lindo, no seu esplendor.

O menino jogava com os amigos mas o botãozinho que não tinha tido grande utilidade até ali, fazia o possível por ganhar e correr sem nunca se cansar.

O menino gostava muito dele. E ele escondia-se no fundo do bolso para que não caísse e se perdesse.

Agora era um botão feliz. Ele, que ninguém queria porque era muito feio.

Os outros lá estão, ainda dentro da caixa, bonitos, mas sem brincarem com o menino nem com a possibilidade de ver como é o sol e as flores. Sem tocar a mão do menino, nem se esconder dentro do seu bolso.

Pode ser que um dia, um a um, também eles ganhem utilidade, de novo, cada um à sua maneira.

Natércia Martins

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