“A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón

Comecei a ler A Sombra do Vento sem enormes expectativas. Toda a gente me dizia que era um livro eu ia adorar e essas certezas sempre me encheram de dúvidas e desconfianças. Depois do arranque inicial, voraz, da descrição da descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos, perdi velocidade à medida que o suspense se acentuava. Desde miúda que não lia um livro de mistérios e investigações. A ansiedade não faz parte dos meus desejos literários. Por isso, a par da intriga, ia crescendo em mim um certo grau de irritabilidade: queria dar um passo à frente das investigações de Daniel Sempere e não conseguia: cada descoberta dele era um espanto meu. Assim, se na primeira semana o livro me acompanhava só uns minutos antes de adormecer, na segunda já fazia parte do meu acordar, da hora de almoço e de toda a noite desde o final do jantar. O que no início era uma exasperação, por me sentir pouco perspicaz, tornou-se uma quase obsessão. Foi uma leitura de interjeições constantes: de espanto, de medo, de confirmação ou de consternação.

No que respeita às personagens, senti-as todas muito bem fundadas: construí-as, vi-as e acompanhei-as: nos seus trajes, nos hábitos e na forma de estar. Aquela que mais esperei em cada página e com a qual mais sofri e mais sorri, foi sem sombra de dúvida Fermín Romero de Torres. Lembrou-me o João da Ega, personagem imortal d’Os Maias, com o seu caráter progressista, sempre crítico, mas também sonhador e sentimental. O inteligente, perspicaz e carinhoso Fermín a quem Daniel deu a oportunidade de ter novamente uma vida e que ele agarrou literalmente com um apetite voraz e guloso. Gostava de ter lido um pai do Daniel mais ativo, mais participativo de toda a trama. Senti-o quase como uma presença divina, sentado no seu cadeirão com o Cândido do Voltaire sobre as pernas, a compreender silenciosa e pacientemente. Gostava que, mais do que Gustavo Barceló, fosse o pai do Daniel, o livreiro Sempere, a dar um dos últimos empurrões da investigação. Gostava, mas não foi assim, e o pai do Daniel conservou a sua calma e confiança ao longo de toda a obra.

Relembrar que cada livro que lemos encerra em si uma história para lá da que narra revela-se o mote desta obra. Para nos fazer imaginar o contexto, a vida por trás da obra, as razões que a justificam, as ânsias e paixões do autor. Um mistério cheio de meandros e pormenores a que muito dificilmente poderemos chegar. E este é o encanto das lombadas e do papel que folheamos: o terem tanto sangue a pulsar, que não conseguimos nem fazer uma pequena ideia. Carlos Ruiz Zafón lembra-nos isso a cada página. E faz-nos avançar a leitura com uma ânsia de indícios que nos ajudem a penetrar em dois livros a um só tempo.

Para lá de tudo isto — como se não bastasse — este livro conduz-nos por uma Barcelona que apetece conhecer com o livro nas mãos. Lugares que nunca visitámos ou vagamente nos lembramos assumem agora formas renovadas, traços marcados de livreiros, relojoeiros, inspetores, mendigos e leitores curiosos. Com um olhar à espreita, sempre. A verdade é que, na noite em que acabei de ler A Sombra do Vento, sonhei que passeava pelas Ramblas, a saborear Sugus.

Vanessa Martins

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