Vampiros Sociais

Não sei bem quando é que a nossa relação começou a fumegar.

Sim, a fumegar.

Largava uma fogaça estranha, aquela névoa que se começa a adensar e nem tu nem eu nos apercebemos bem do que se tratava.

Não eram labaredas ainda. Sabes quando os índios fazem fogo com dois pauzinhos e começam a soprar para chegar a um vapor que vai criando cada vez mais fumo? Foi assim que tudo começou.

Tu tinhas muitos problemas para resolver. E eu, com a minha mania de ajudar todas as vítimas deste mundo e do outro, ajudava-te a soluciona-los. Tu caías, eu apanhava-te. Tu espirravas, eu assoava-te. Tu choravas, eu lambia as tuas lágrimas. Tu endividavas-te, eu pagava as tuas contas. Tu encharcavas-te em comprimidos, eu reorganizava a minha vida e as minhas tarefas só para poderes contar com a minha voz do outro lado da linha, só para te escutar. Só para teres alguém com quem falar da vida. Porque tu tinhas problemas. Problemas para resolver.

Foram-se passando os meses, e eu, que achava que tinha resolvido alguns dos teus problemas, assistia a catapultas de mais e mais assuntos, dramas, tragédias e tramas que nem nas telenovelas se viam.

Apareciam pessoas, casos raros, aflições, cenas pungentes, tragédias de “faca e alguidar” que, se não fossem verdade, só podiam ser inventadas.

E eu fazia o que qualquer amigo faz: ouvia, priorizava, arranjava recursos, desempatava, decidia, resolvia e acabava-te com os tormentos. Até tu arranjares “mais lenha para atear a minha fogueira”.

Fomos vivendo assim durante vários meses. Até tu me dizeres que a “tua vida” estava no fim. Caput. Tinhas chegado à paragem final do teu autocarro. Estavas no teu limite porque a “tua vida” tinha estagnado.

“Estagnado?”, pensei eu.

“A tua vida estagnou?”, pensei eu.

Então e a minha? A minha, aquela vidinha que foi ficando em stand-by porque a TUA é que era importante. A tua é que precisava de motivação, de um “vamos lá!”, de um “bola para a frente”, de um “mas queres levar um estalo? Não és nada má pessoa!”.  Essa vidinha. Essa acabou?

Foi nesse momento que apareceu o índio a fabricar a tal fumaça. Foi aí que eu parei e me sentei numa pedra, a meditar. Na realidade, não foi bem numa pedra. Lembro-me agora que estava a conduzir o meu carro no sentido Lisboa / Montijo. Em cima da ponte, a ver aquele bando de flamingos cor-de-rosa que por vezes fazem razias à ponte Vasco da Gama, decidi “abandonar-te”. Decidi fechar a porta e sair sem sequer te dizer adeus. Sem dramas, sem explicações, sem que tu te apercebesses que, afinal, eu estava a desaparecer. Na verdade, como tu só costumavas olhar para o teu umbigo, seria talvez normal que demorasses algum tempo até te aperceberes que eu, afinal, não estava “lá”.

Como vai a tua vida agora? Não sei.

A quem agora “sugas o tutano” agora a dedicação, a atenção, a devoção, o zelo, a preocupação? Não sei.

Sei agora que tinhas um vício: eras aquilo a que se chama de “vampiros sociais”.

Pessoas que extraem dos outros toda a sua energia ao ponto de os esgotarem. E quando eles caem, já com toda a sua vivacidade esgotada, sem um pingo de cor, de ânimo, de espírito, de alma, de vontade, de força, estes vampiros “sacam” dos seus trunfos mais valiosos e fazem jackpot: vitimizam-se com tal astúcia, empenho e determinação, que tu, com pena, com dó, com compaixão extrema, levantas-te, sacodes o pó, endireitas-te, abres os braços, e recebes no teu regaço os dentinhos afiados para nova mordidela.

É aqui que se dão as labaredas. É aqui que decides se a tua relação com o vampiro vai ou “racha”. Ou tens a coragem de trespassar o fogo,  encher os bolsos com alhos, água benta e crucifixos e banir (desta vez para sempre) essas pessoas da tua vida, ou a tal marca dos caninos vai la estar, no teu pescoço, para toda a eternidade.

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