“O Homem Domesticado”, de Nuno Gomes Garcia

Este ano, a grande série televisiva que agarrou o grande público foi The Handmaid’s Tale, A História de uma Serva, baseada no livro com o mesmo nome de Margaret Atwood e publicado pela primeira vez em 1985. A discussão sobre se o mundo distópico de Gilead é mera ficção ou se aproxima velozmente da realidade desabrochou. Nesta nova sociedade os homens detêm todo o poder, estando as mulheres proibidas de ler, de usar o seu nome próprio ou de sair quando bem entendem. Aquelas que são férteis são usadas num ritual de procriação para gerarem filhos às mulheres inférteis dos grandes políticos, também estas com um papel bastante diminuto no que respeita a liberdade. Uma série que, pese embora a angústia, está muito bem realizada e vale realmente a pena acompanhar.

Se, por um lado, vi a série de uma assentada, até me doerem os olhos, não quis, por outro, ler imediatamente depois o romance da Margaret Atwood. Encontrei, no entanto, a mesma cegueira totalitária no seu reverso sexual no terceiro romance de Nuno Gomes Garcia. O Homem Domesticado trata de uma sociedade europeia, depois do que denominam de Grande Flagelo, em que são as mulheres que lideram toda e qualquer ação, não permitindo aos machos mais do que tratar da casa, sempre vestidos com o seu cache-tout, e ter a sua parte na procriação em úteros artificiais. As mulheres têm total poder de domesticar os machos que escolheram no Instituto de Maridos, assim como de os castigar.

Toda a trama gira em torno de Francine Bonne e dos seus dois maridos, uma vez que o primeiro é infértil e ela conseguiu arranjar um segundo sem se desfazer do primeiro, que já estava domesticado a seu gosto. A chegada do segundo marido, diferente dos demais, todos eles criados em laboratório, transporta consigo uma série de questões e ações que culminam numa morte e na sua investigação. Um assassínio que se transformou numa questão política e que será conduzido de formas menos próprias, numa justiça que pretende, acima de tudo, dar força às mulheres e mostrar a rebeldia dos machos e a necessidade de os dominar.

A escrita em si não foi sempre cativante, mas julgo que a temática e a reflexão vindoura se sobrepuseram a quaisquer momentos menos fluidos. De certa forma, a par de The Handmaid’s Tale, O Homem Domesticado relembra-nos a necessidade do equilíbrio social, sem desconsiderações para qualquer dos sexos. Uma reflexão que cada vez mais parece valer a pena.

Vanessa Martins

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