“Stoner”, de John Williams

Este verão decidi deixar que outras pessoas influenciassem as minhas escolhas literárias. Julgo que é a melhor forma de descobrir títulos que, não fosse assim, permaneceriam escondidos. E entramos também, em grande escala, no universo da pessoa que nos aconselha, no seu dia-a-dia e nas suas paixões. Puseram-me este livro nas mãos e disseram: vais adorar. E eu comecei a leitura e cada vez ficava mais surpreendida: uma história demasiado calma, às vezes a roçar o aborrecido; muito bem escrita, em certos momentos quase demasiado bem escrita, se é que me faço entender.

Eram tão limpas todas as descrições que parecia que lhes faltava energia, pulsão. Os diálogos curtos, monocórdicos. Não existiam falhas nem aberturas que as possibilitassem. Às vezes fechava o livro e lia na capa as pequenas considerações que outros escritores tinham feito ao livro e lia coisas como «magnífico», «brilhante» ou «quase perfeito» e sentia-me confusa comigo mesma, com a incapacidade de descobrir os mesmos atributos no que lia. A leitura não chegou ao enfado, mas tive medo que isso acontecesse, ainda nas primeiras páginas.

Mas não demorou muito para que, de um momento para o outro, e não consigo especificar quando, mas, ao mesmo tempo que sentia uma crescente empatia pela personagem, adentrasse no ritmo sereno de um narrador ameno e sem pressas. Só o ritmo da leitura galopava, o que estava inscrito nas páginas era de um abrandamento quase acidental.

E julgo que acidental é a palavra que melhor descreve esta personagem e toda a sua história. Foi de forma acidental que William Stoner foi para a universidade; foi de forma acidental que descobriu a paixão pela literatura; foi de forma acidental que casou; que conheceu o grande amor; que teve sucessos e fracassos na sua carreira. Mas Stoner é tudo menos uma personagem acidental: se a sua vida tomou um rumo um tanto ou quanto ao acaso, sem que nada o sugerisse, a sua personalidade parece que nunca perdeu as suas origens, ao invés adensou-as. De trabalhador rural a professor de literatura inglesa numa universidade, parece que nunca se sentiu verdadeiramente encaixado em nenhum dos ambientes. De um herdou a quietação e o trabalho, tal como os seus pais, pouco faladores e extremamente dedicados, do outro a cultura, mas também a perturbação.

O estudo e a vocação para professor, que estava bem no fundo dos seus medos e descobriu a pulso, são o refúgio de quem acompanha a vida só porque sim, sem um murro na mesa ou uma voz mais elevada. Vejo Stoner numa procura constante de sentido, não só para si, como para o mundo. Pode sê-lo ou não, cada leitor o dirá.

O que mais me surpreende — e fascina, até — neste livro, é ter sido publicado pela primeira vez em 1965, mas só há poucos anos ter sido descoberto na sua perfeição e traduzido. Quantos leitores mais podia ter deslumbrado nestes anos todos? O que o terá levado a ficar “perdido”? O facto é que conseguiu atravessar décadas de uma maneira impressionante. Importa lê-lo, realmente.

Vanessa Martins

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