Irmãos

Uns querem ser filhos únicos porque tem irmãos, outros querem ter irmãos porque são filhos únicos. Isto comprova que o ser humano nunca está bem com o que tem, mas o tema de hoje não é esse. O tema de hoje são, supostamente, aqueles amigos que temos desde infância. Digo “supostamente”, porque viver com uma pessoa desde sempre não é nada fácil, quanto mais uma pessoa que costuma ter uma idade mais ou menos próxima às nossa.

Ter um irmão tem as suas várias fases. Uma fase inicial em que somos ambos crianças e que nada parece mal, somos apenas amigos e companheiros de brincadeiras. Uma fase da adolescência em que estamos sempre a brigar porque nada está como nós queremos e a culpa irá ser sempre do nosso irmão. Uma fase adulta em que já só nos vemos mês sim e mês não. E uma fase idosa em que vai ser o nosso primeiro contacto na lista telefónica porque mais ninguém nos vai aturar.

Ter 1 irmão é 1 problema. Ter 2 ou 3 são toda outra história, depois depende ainda da hierarquia organizada pelos pais: o mais velho, o responsável, que tem de tomar conta dos outros, o culpado sempre de tudo, o irmão do meio, o rebelde, o traquina e o mais novo, a criancinha pequenina, o menino/a da mamã em quem ninguém pode tocar. Depois claro com o aumento de irmãos esta hierarquia vai toda sendo reformulada.

Na fase da adolescência é quando os problemas atacam, e qual é a única pessoa que está lá sempre mesmo a postos para levar uma tareia psicológica (e física) por causa dos nossos problemas? Exactamente, o nosso irmão. Chega aquela altura em que de vez em quando nos apetece descomprimir e quem está lá? Exactamente, o nosso irmão. Pior, pior é quando começam a dizer que somos parecidos aí é que só apetece esmurrar a pessoa do género: “Você não vê que nós não temos nada a haver?” (mesmo que sejamos gémeos) É nesses momentos que percebemos a importância deles porque se calhar sem eles iríamos andar todos às pancadas às paredes.

Quando somos mais velhos, adultos, o nosso irmão é aquele que, quando não tivermos nada para fazer no fim-de-semana com as crianças, dizemos: “Olhem, vamos ali visitar o tio Jorge que já não o vemos à tanto tempo”. E pronto, assim aproximamos mais a família e os nossos filhos sempre ficam entretidos com os primos enquanto nós pomos em dia a conversa de 2 meses.

Até que chega aquele momento em que somos mais velhos que a Sé de Braga e já estamos tão velhinhos e cansados que na lista telefónica já só aparece um contacto, o do nosso irmão, que vai ser aquela pessoa a quem nós telefonamos no final de cada dia a contar como foi a apanha da couve e o que é que vamos plantar no dia seguinte, e ficamos todos contentes porque eles nos contam exactamente a mesma coisa, mas não faz mal, porque para além da publicidade e dos nossos filhos ainda vão ser os únicos que nos vão telefonar. Por isso é que, independentemente de todas as guerras, chatices e dramas que tivermos com os nossos irmãos, não os trocaríamos por nada, pois afinal de contas somos do mesmo sangue e ninguém compreende melhor as nossas crises de meia-idade como eles.

Por isso é que, independentemente de tudo, ser filho único não é opção e só percebe isso quem tem uns irmãos a valer.

Sara Ferreira

Sê o primeiro dos teus amigos a partilhar esta página!
  • 12
  •  
  •  
  •  
  •