“A Menina dos Fósforos”, de Hans Christian Andersen

Todos conhecemos esta história, e não é meu propósito hoje fazer nenhuma crítica ao texto ou ao autor sobre o qual, de forma alguma, ninguém poderá dizer mal sem um grande esforço prévio. O seu nome é associado às mais bonitas histórias que sempre perduraram no tempo. Quem não conhece o Patinho Feio, Os Sapatos Vermelhos, O Soldadinho de Chumbo, O Rei vai Nu? A minha preferida desde criança foi sempre a Princesa e a Ervilha. Era a mais divertida e ria-me a imaginar montanhas de colchões sem esborrachar a malfadada ervilha. E hoje, em tempo de preparação do Natal, lembrei-me d’A Vendedora de Fósforos ou, como faz parte da minha memória, A Menina dos Fósforos. Por isso não vou propriamente estabelecer nenhuma crítica. Permitam-me que apenas deambule pela beleza da narrativa e viaje através dos anos que me reconduzem à infância.

Lembro-me de ler esta história uma única vez, em criança. E lembro-me de ter ficado triste, em silêncio, muito tempo. Como é que se escrevia uma história tão triste? Na altura, quando não tinha histórias novas para ler, relia as que por ali tinha. Mas esta escapou sempre. E julgo que não só por a ter sentido tão triste, mas por a manter tão presente dentro de mim. A menina dos fósforos era uma menina que eu tinha conhecido, podia chamar-lhe quase amiga, e que tinha desaparecido de uma maneira tão triste, com tanto frio e sem ninguém que a acarinhasse. Gostava dela, lembrava-me dela amiúde, sobretudo quando estava realmente muito frio. E nunca mais peguei nessa história. A menina sem nome tinha saído do livro e às vezes estava comigo.

Este ano um acaso levou-me a reler A Menina dos Fósforos. E desta vez senti mais do que a tristeza da infância. Se eu julgava que era uma história triste, que nem percebia bem porque é que estava num livro para crianças, hoje percebo que é uma história sobre a esperança. Uma esperança cândida, tão inocente, tão bonita. Cada olhar pelas janelas que lhe devolvia o brilho das luzes e o cheiro da carne assada era uma esperança. Depois, cada acender de fósforo era uma nova vida numa chama que era, por instantes, bola de cristal de justiça, se a houvesse. O que aquecia a menina não era o lampejar de cada fósforo na neve, era a esperança e a descoberta de novos mundos. Uma procura de saída da sua situação naquele momento, descalça, gelada na noite gelada.

A Menina dos Fósforos é uma resistente. É invisível para a sociedade, mas isso não é entrave: continua a alimentar a chama da vontade de ser mais. Mais feliz, que é o que realmente importa, seja onde e como for. Mesmo que seja como estrela cadente rumo ao céu. Mas, mesmo sendo uma resistente, dava-lhe um jeitão ter ali uma mão amiga.

Estamos quase no Natal e, sem moralismos, julgo que esta história pode ser uma inspiração para o sentido desta quadra. Quantas Meninas dos Fósforos não conhecemos? E nem precisa ser nas ruas: no trabalho, no metro, no autocarro, na própria família. Como diz uma rubrica de rádio: vale a pena pensar nisto. 🙂

Vanessa Martins

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