Incêndio

“O que levavas de casa se só tivesses 5 min?”, “ O que farias se só tivesses 1 hora de vida?”, “Cada vez que a morte ronda, qual imaginas ser o teu derradeiro e ultimo momento?”

Nas revistas femininas mensais ou em testes de personalidade de psicólogos ou mesmo na leitura das linhas da mão pela cigana, acreditem estas perguntas surgem. A minha resposta é sempre a mesma na minha cabeça, mas nunca a digo alto, nunca se ouve a materialização ou sonorização dessa resposta. Limito-me a fechar os olhos e há 10 anos que a imagem é exatamente a mesma.
Não sei como lá chego, mas o mundo está prestes a acabar, tudo é poeira, fogo, populações a fugir, unicórnios a voar, toda uma situação de caos.

Eu já estou no portão da Quinta. Suspense de 10 segundos para ganhar folego. Está nublado.
Sei que ainda é uma longa corrida até a porta bordeux. Sinto o vento e sei de cor cada oliveira que vai ficando para trás.
Empurro a porta bordeux pesada, são os últimos minutos deste mundo, vale a pena.
Subo as escadas, procuro em todo o lado. O som da Lareira estala e tento colocar a cabeça em dia, mas já é tarde, são os últimos minutos deste mundo.
Procuro na sala de piano, nada. Procuro na casa de banho, Merda…ainda faz o mesmo barulho estridente e ferrugento, velharia tal e qual o meu amor.
Quarto, a foto na cómoda, a cama. Nada. Não está ninguém.
Corro o mais que posso, amo o mais que consigo, choro de desespero, são os últimos minutos do mundo.
Paro diante da janela, fico calma. Sei que não estás e já não há tempo. A tua mão cheia de rugas e feridas já não me vai agarrar. Permaneço focada nas vinhas que se veem desta minha janela que sempre foi a preferida. Acalmo-me. A mágoa já não mora mais em mim.

É o fim do meu mundo. Sempre foi.

Rita Alves

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